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2024 • Vida Por Um Triz

 



OC Quest 2024


Vida Por Um Triz

por Gui Feliciano




0. Prólogo


Percebeu-se em meio à escuridão. De imediato, pensou em acender seu isqueiro; por reflexo não o fez, seu olfato acusava algo inflamável.


A armadilha em que caíra conseguia ser viscosa no piso e paredes enquanto mantinha um ar tão seco que tornava áspero respirar. Em meio à escuridão, seus olhos estavam atentos.


Tirou a camada mais externa de sua roupa — um manto em recorte de poncho — e rasgou em duas partes. Improvisou proteções para suas mãos; com elas, tateou as paredes. Por baixo da superfície pegajosa havia uma parede rústica e firme; naquelas condições não conseguiria quebrá-la, muito menos escavá-la.


Sabia que fora jogado ali, portanto a saída ficava acima. Sentia que fora capturado há algumas horas, mas como seu corpo já estava acostumado a passar dias sem alimento, além disso fora pego enquanto se hidratava, não teria sequer como especular baseando-se em suas necessidades físicas.


A viscosidade do chão era menos resistente que a das paredes, então sua melhor aposta seria pular. Adácia e Nichole não poderiam ajudá-lo agora, mas sentia que não precisava. Verificou como suas mãos e pernas se movimentavam. No pouco espaço que tinha, alongou-se.


Dobrou levemente suas pernas, deu um salto curto, mão estendida pra cima, não tateou nada. Repetiu, com as pernas dobradas um bocado mais, mão estendida, não tateou. Na terceira vez, sentiu que havia algo próximo, acentuou a dobra dos joelhos e pegou embalo, tateou um fecho. Quando caiu, sentiu que o chão abaixo de si estremecera.


Havia provavelmente uma plataforma que romperia abaixo de si se ele pulasse com mais força que aquilo e errasse o alçapão no topo da armadilha. Naquele momento, ignorou o que aconteceria se errasse. Olhou para cima. Disse para si mesmo:


— Mais uma vez, um salto à beira da morte.








1. Personagem

— Então é por isso que cê tá enchendo a cara? - perguntou o senhor de rosto rapado, com uma expressão cansada de ouvir há anos as mesmas reclamações.


— É. Isso. - respondeu seu conhecido, virando mais um gole de bebida forte, num caneco de madeira semelhante a um pequeno barril.

 

A taverna estava levemente movimentada, sendo acoplada à guilda local daquele pequeno vilarejo, a maioria da clientela era de aventureiros recém-chegados de missões, ou desfrutando do tempo livre. Um rapaz vestindo um manto chamuscado entrou e se dirigiu ao balcão da guilda. O bêbado prosseguiu:


— Aquele moleque tá querendo tirar minha filha de mim, tenho certeza. Moleque atrevido. Ninguém mexe com a filha do Abutre! - sua voz esganiçava quando ele se exaltava. O álcool exacerbava isso.


— O Hélio é um bom rapaz, Abutre. Ele sempre foi esquisito, mas sempre evitou trazer perigo pra Nissa. Cê sabe disso. - respondeu, conselheiro, mesmo sabendo que seus argumentos entrariam por uma orelha e sairiam pela outra.


— Vai levar a minha filha embora! Bom garoto nada! E ainda vai querer levar meu jardim botânico. - bebera o último gole, sonoramente, batendo a caneca com força no balcão. Um atendente viera encher seu copo. - Sabe o trabalho que eu tive pra criar aquela menina e manter de pé aquele negócio depois que a Sheila…


Antes que Abutre se rendesse às lágrimas, seu companheiro abraçou-o pelo lado.


— Não fica assim, cara. A Nissa gosta do Hélio, ela ter se dedicado a tirar o certificado enquanto te ajudava na moenda é prova disso! Ela é uma boa filha, ela vai voltar quando encontrar ele e se eles tomarem conta do jardim botânico-


— Ele não vai botar a mão nas minhas plantas! - Abutre interrompeu.


— Se eles…! Se eles tomarem conta do jardim botânico, você pode continuar trabalhando só que sem tanto peso nos seus ombros. Você tá ficando velho, Abutre. Quem te conheceu quando você era aventureiro nem te reconhece mais. - o senhor de rosto liso tinha um olhar melancólico. O bêbado ainda não tinha bebido do copo recém preenchido.


— Fabrício, muito obrigado pelo seu carinho todos esses anos… - começou Abutre.


— É Benício. - Benício o corrigiu.


— Benício, muito obrigado pelo seu carinho todos esses anos… - continuou Abutre, sem pestanejar. - …mas aquele mercenário! Não vai roubar minha filha-


— Mercenário? - o rapaz de manto chamuscado interrompeu a conversa.


Benício olhou de relance para o balcão, onde o rapaz estava no segundo anterior e viu a atendente da guilda com braços trêmulos, se apoiando na mesa do lado interno do balcão. Também de relance, Benício viu o brasão de caveira trincada no manto do rapaz. Desviou o olhar, antes de reagir às cicatrizes fundas em seu rosto.

Aquela caveira trincada era sinal de problema. Um calafrio se apossou do corpo do senhorzinho. Abutre estava longe demais de sua sobriedade para se atentar a isso:


— De que mercenário estamos falando? - o rapaz insistiu.


— O Hélio, aquele pilantra. - Abutre cuspiu a ofensa, antes de bebericar um gole curto, para voltar a malfalar do par romântico de sua filha. - Concluiu uma missão que tava por fazer há alguns meses, teve até alguns aventureiros que tentaram concluí-la mas acabaram não voltando.


— A missão da mina, onde alguns aventureiros de Estirpe Cordilheira foram dados como mortos? - o rapaz de rosto marcado esboçava um sorriso mórbido e um olhar de desdém. O Abutre, que não fazia contato visual, não sabia. Benício ainda tremia.


— Essa mesma! Voltou ileso e ainda chamou os outros de palermas. Palermas! Dá pra acreditar? - apesar da revolta, continuou a beber. Seu longo gole foi interrompido pela resposta desdenhosa do rapaz.


— E é isso que são. Se morreram em missão, são palermas.


Segurando para não cuspir sua bebida, Abutre engoliu de pronto e virou bruscamente enquanto gritava com o intruso:


— Ora! Mas quem você pensa-


Um som surdo ecoou pela taverna. Num tapa, o rapaz fez a cabeça do bêbado ir de encontro ao balcão. A caneca, que fez parte da colisão, foi disparada contra as garrafas ao fundo do bar. Alguns aventureiros ali presentes se levantaram para intervir, Benício estava acuado em seu assento. Quando quem levantou avistou a caveira trincada, voltaram ao seus lugares. Ninguém em sã consciência se meteria com quem veste aquele brasão.


O rapaz caminhou tranquilamente até o balcão da guilda enquanto proferia:


— E cale-se, velho. Cansei de ouvir sua voz. É nojenta.


Olhou para a atendente que agora tremia menos, mas ainda se demonstrava abalada. Seu olhar a percebia como um pedaço de carne, ela ainda não tinha experiência suficiente para manter a compostura diante de tamanho destrato. Ele repousou as mãos sobre o balcão, aproximando-se dela:


— Hélio. Esse é o mercenário do qual quero informações.


— Eu já te disse… - começou a jovem, relutante. O topete castanho e feições delicadas do rapaz não pareciam uma moldura adequada para o retrato que eram as cicatrizes e olhar lascivo que habitavam aquele rosto. - …eu não posso te dar informações.


Ele levantou uma das mãos do balcão. Toda a taverna observava atentamente, mesmo que ninguém ali se encontrasse em condições de defender a menina dos olhos da guilda daquele intruso. A mão foi de encontro ao queixo dela, puxando-a para perto do rosto do rapaz.


— Ora, mocinha. Contribua, sim?


Num agarrão ágil e firme, uma senhora que surgiu por detrás da atendente mais jovem separou o rapaz dela. Colocou-se entre eles, olhando fixamente nos olhos do cicatrizado:


— Kenya, vá para o escritório. - a jovem começou a recuar, mas ficou apoiada ao batente da porta. - O Hélio não é um aventureiro, ele não tem certificado.


— Dona Tremenda, não-! - começou a jovem, parando perante a mão aberta da veterana, que orientava silêncio. Em nenhum momento a mulher rompeu contato visual com o rapaz.


— Ele concluiu a missão, de esvaziar a mina do norte da vila de uma ameaça não identificada, sozinho. Sem ferimentos, sem baixas. Pegou a recompensa, repousou num dos quartos daqui por três dias e saiu. Não deixou pertences, nem rastros. Eu limpei o quarto. Não sabemos o paradeiro dele desde então.


O olhar lascivo do intruso se desfizera, olhava para Tremenda com desafeição. Também não fugiu do contato visual, apesar disso. Fez um clique com a língua e virou-se em direção a porta.


— É, tá. Isso serve. Fez bem em contribuir, velha.


Antes que o rapaz alcançasse a porta, a voz esganiçada de Abutre se fez ouvir desde o balcão onde sentara. Havia recobrado a consciência e a primeira coisa que reconhecera quando se orientou foi a caveira trincada, estampada na capa do manto do intruso. Reconhecera e reavivara uma ira provinda desde de sua juventude:


— Malditos sejam os Sinews! Por onde passam só causam desgraç-


Uma chama subiu de seu hálito alcoólico. A garganta de Abutre estava incinerada. O rapaz virou só a cabeça em direção ao homem. Com um olhar desgostoso, o rapaz o encarava; então, virou o rosto de novo em direção a porta. Enquanto caminhava, disse:


— Eu mandei ficar calado. Agora não fala mais.







2. Segredo

O mercenário não estava acostumado a andar por lugares tão movimentados. Para onde olhava tinha gente aos montes, desde civis a passeio e a trabalho, até aventureiros fazendo reconhecimento de área. Mesmo estando a uma cidade de distância da sua terra natal, Hélio ainda cobria seu rosto para evitar o risco de ser reconhecido. Sentiu a fome apertar, pegou duas moedas pequenas, foi até uma barraca que vendia sanduíches e pediu:


— Um sanduíche de pato. - prontamente o senhorzinho que gerenciava a banca guardou as moedas, sacou um pão fresco, recém-cortado, preencheu com uma maionese verde cujo cheiro era suave e refrescante, alguns tomatinhos picados e a carne suculenta de pato típica daquela região portuária.


Hélio engoliu o acúmulo de saliva que se formou em sua boca. O sanduíche tinha por volta de vinte centímetros e pesava tanto quanto prometia. Hélio agradeceu, afastou-se da banca, sentou no primeiro muro baixo que encontrou e começou a devorar o sanduíche.


Alguém aproximou-se dele.


Terminando de comer, a presença que havia se aproximado sumiu, mas um vulto sentou do seu lado. O tal vulto cruzou as pernas e apoiou a mão no murinho. Era um rapaz de cabelos ondulados e brancos, vestindo roupas casuais apesar de seu porte ser típico de um aventureiro, seus olhos tinham uma cor marrom-alaranjada que era opaca demais para parecer com âmbar. Tinha um sorriso gentil:


— A carne de pato daqui é boa demais, né? - soltou, casualmente.


— Pra lá de boa. Huh? - Hélio não tinha o costume de falar com estranhos, ainda mais em lugares abertos como aquele. Todavia, sua boca respondeu mesmo que não tivesse a intenção.


— Pelo jeito que você estava comendo, de onde você vem não tem carne de pato em abundância, tem? - continuou a figura, com uma expressão amigável.


— Não, só vegetais e gado. Pato raramente conseguimos comprar de vendedores itinerantes. - mesmo com a guarda levantada, Hélio não conseguia não responder o rapaz.

Era uma situação curiosa, as informações saiam mesmo sem que ele tivesse consciência do que falaria. O loiro olhou para o céu, pensando sobre o que Hélio havia respondido. Murmurava algo:

— Vegetais e gado? Se falou de vegetais antes e não citou massas ou frutas... 


O mercenário estava curioso com a linha de raciocínio do estranho, ainda mais quando esse levantou, olhou suas vestimentas do calçado ao capuz e acenou que sim com a cabeça, antes de sentar-se de novo ao seu lado:


— Você conhece um mercenário chamado Hélio, né. - concluiu.


Pego de surpresa, Hélio engoliu seco. Rapidamente cobriu a boca com as mãos, falando apenas uma série de murmúrios ininteligíveis através dos dedos. O loiro sorriu de maneira pateta. Apoiou de novo a mão no murinho e disse.

— Então você é o Hélio. Prazer, meu nome é Verus. Pode escrever com “o” ou com “u”, fica à sua escolha, o que achar mais bonito. - os gestos do estranho eram tranquilos e honestos, tal qual seu nome. - Desculpa me apresentar tão tarde, mas por aqui me chamam de Verus, o ladino sincero. Sirvo a Ankfl, então enquanto eu falar a verdade, ele vai me abençoar.


Os pontos começaram a se conectar na mente do mercenário, mas ainda faltava muita informação para chegar em alguma conclusão coerente. Esse tempo todo, Hélio mantivera as mãos tapando a boca. Tirou-as.


— Isso tem alguma coisa a ver com eu te responder contra minha vontade? - perguntou, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa. O loiro sorriu.


— Inteligente, você. Sim. Eu chamo de “lei da sinceridade”, é um dos princípios de servir a Ankfl. Contar mais detalhes que isso, agora, seria perigoso. Enfim. Eu preciso da sua ajuda, quer entrar para minha equipe? - respondeu, perguntou. Hélio não esperava por aquela transição. 


Ainda com a boca meio suja do molho de carne, o mercenário encarou o ladino por um momento, pensando que ele continuaria. Não continuou. Hélio limpou a boca com as costas da mão. Levantou, se alongou. O loiro, mesmo sentado, também se alongava.


— Por que você veio atrás de mim? - perguntou o mercenário, o loiro pareceu surpreso. Sem pestanejar, respondeu:


— Você tem fama de ser forte e é um mercenário. É o que precisamos agora. - foi tão objetivo que pareceria grosseiro, não fosse seu sorriso tranquilo. Percebendo que talvez fosse necessário mais contexto, prosseguiu. - Bom, precisamos partir o mais rápido possível e não temos tempo pra passar pela burocracia de incluir um aventureiro novo na nossa equipe, já que a missão é privada.


Hélio encarou Verus, pois ao mesmo tempo que confiava na lei da sinceridade, precisava de mais informações para fazer algum julgamento definitivo. Verus compreendeu isso instintivamente, convidou o mercenário para ter uma reunião e conhecer o resto da gangue na guilda local, ele topou. 


Chegando na guilda, foram para um salão que ficava no piso inferior do prédio. Tinha algumas salas, entrando na terceira porta à esquerda, encontraram outros quatro aventureiros sentados numa mesa de oito lugares. Pelas vestimentas, Hélio julgou que fossem um lutador, um bárbaro e dois magos… ou algo voltado para magia. Os potenciais magos eram muito parecidos e usavam roupas parecidas.


— Pessoal, esse é o Hélio. Acabei esbarrando com ele perto da barraca do Seu Saomão. Ele veio conhecer vocês para decidir se realmente vai entrar nessa missão com a gente. - Verus resumiu bem a situação, pela falta de explicação sobre quem era, presumiu que os outros membros soubessem tanto sobre “Hélio, o mercenário” quanto “Verus, o ladino sincero” sabia.


— Boa tarde. - disse o recém-chegado, foi recebido com respostas diversas, desde “boa tarde” acompanhado de sorriso até silenciosos acenos com a cabeça.


— Apresentando de maneira prática, o lutador ali é o Prosé, conhecido como “mordomo do campo de batalha”, o maluco sem camisa é o Marthu, cujo apelido é “martelo de guerra” e os gêmeos mágicos ali são o Thon e o Thanto. Às vezes a gente confunde o nome deles, então não se preocupe com isso, aparentemente tem algo a ver com a magia que eles desenvolveram. - dadas as apresentações, Hélio observou por um instante.


— É, vou com vocês sim. - respondeu, decidido. Seu instinto lhe dizia que era o que precisava fazer. Olhou para Verus, que o encarava com um olhar determinado. - Qual é a missão?


Verus adicionou um sorriso de significado indeterminado ao seu semblante, agora aliviado de ter o mercenário na equipe. Deu um riso e respondeu:


— O primeiro passo é descarrilar um trem.






3. Acidente


    — Vazio? - perguntou Hélio, consternado.


    — Vazio. Quer dizer, com o maquinista. Mas isso não deve trazer grandes problemas. - Verus respondeu, com certa confiança no plano ainda por desvendar. Prosé colocou algumas folhas sobre a mesa, onde havia anotado os horários de liberação e ocupação de cada uma das entradas da garagem.


Hélio observou cuidadosamente as anotações. Os números de Prosé eram muito bem desenhados e intrigavam a Hélio. “Não parece a letra de alguém que vive de lutar”, pensou. Olhou para o lutador e percebeu que seu rosto era jovial, com bochechas arredondadas apesar de não serem gordas. Seus cabelos azuis-escuros pareciam bem cuidados, combinavam com os olhos acinzentados.


Em segunda análise às folhas, havia também um horário de circulação por algumas das vias do subsolo, onde ocorria a circulação de mercadorias, ao invés de pessoas.


— Os trens novos funcionam através de cascalho mágico, usando uma reação em cadeia para multiplicar a magia emanada pelo maquinista. Por conta disso, o maquinista poderá diminuir uma velocidade uma vez que ele perceber a falha nos trilhos. O trem vai capotar, mas a velocidade reduzida impedirá que ele corra risco de vida. - explicou o lutador de cabelos azulados, numa voz mais grave do que seu rosto indicaria, falava em tom didático. Hélio surpreendeu-se.


— Isso se ele perceber a falha na pista, né. Moscou, perdeu. - complementou Marthu, o bárbaro. Seu cabelo era ruivo e arrepiado, um cabelo cobre bem, bem avermelhado. Parecia recém tirado de uma fornalha. O homem corpulento tinha a pele grossa bem delineada pelos músculos. Apesar de gordo, parte do seu corpo parecia não ter a mesma quantidade de gordura natural, como se os músculos queimassem gordura localmente, mas a dieta fornecesse calorias que mantivessem o peso elevado, num geral.


— Espero que perceba, mas não temos como avisar, de qualquer forma. - o lutador respondeu, demonstrando algum grau de preocupação com o pior cenário. Hélio, observando essa troca, perguntou:


— E por que mesmo precisamos desse acidente?


— Distração, distração! Vamos distrair! - respondeu um dos irmãos mágicos. Parecia empolgado como uma criança.

— Todos serão pegos de surpresa. - o outro irmão disse, rindo baixo mas de maneira descompassada. - Comoção coletiva. - continuou, rindo de novo, ainda mais baixo.


Os dois irmãos eram muito pouco distinguíveis quando quietos, mas dada a oportunidade de se pronunciar, pareciam, de fato, pessoas diferentes. Ambos usavam mantos de um tecido esverdeado, semelhante ao da roupa de Hélio. Além disso, tinham o corpo pintado com os mesmos símbolos geométricos, nos mesmos lugares do corpo.

Os olhos eram verdes, assim como a roupa, o cabelo era preto como os de Hélio, solto deveriam alcançar os ombros, mas estavam trançados e enrolados num coque acima da nuca.


— Ah sim, inclusive. Que cor você enxerga no cabelo e roupas deles? - Verus perguntou, seu olhar demonstrava a curiosidade de quem espera a reação a uma piada conhecida. Hélio ficou confuso com a pergunta, mas respondeu independente da hesitação.


— Cabelos pretos, roupas verdes…


— Que nem as suas?


— Sim…? - nesse momento, tanto Marthu quanto Prosé se entreolharam e balançaram a cabeça como se concordassem com algo.


— Ótimo, é o que precisávamos saber. Voltando ao que perguntou antes: sim, é para distrair a multidão. Explica pra ele, Prosé. - Verus passou a palavra para seu camarada. Prosé pigarreou e se levantou, Verus e Hélio finalmente sentaram-se à mesa.


— Fomos contatados por um grupo de ladrões que querem roubar uma carga que vai chegar amanhã na estação. Provavelmente ferramentas que serão utilizadas na modernização da infraestrutura da cidade. - quanto mais Prosé falava, mais com um tutor ele parecia. A roupa surrada e a armadura leve não pareciam estar na pessoa certa. - O governador atual tem uma rixa com o irmão mais velho, que governa a parte mais periférica da cidade. Então é comum rumores ou ações terroristas vindo dele.


O mercenário levantou uma sobrancelha e cruzou os braços. Não sabia se sentia-se confortável em se envolver nesse tipo de problema. Trocou olhar com Verus, que acenou com a cabeça para que ele prestasse atenção na continuação.


— Mas o plano deles é falho, pois precisavam de uma distração. Entramos em contato e foi decidido que faríamos o seguinte: deslocaríamos o trilho de um dos trens que estaria indo para a garagem, de forma a chamar a atenção do público e da equipe de segurança, enquanto eles assaltavam a carga noutro canto da estação. - antes que Hélio pudesse se manifestar, Prosé fez a ressalva. - Já contatamos anonimamente a equipe de segurança da estação para colocarem guardas à paisana na plataforma, para que possam capturar esses ladrões. Não só isso, mas eles estão com um amuleto forjado que demos, para evitar maiores problemas.


— Amuleto? - o mercenário pensou em voz alta.


— E ainda foi o Veros que entregou, eles nunca vão suspeitar. - Marthu disse, em meio a uma risada. Prosé pigarreou mais uma vez.


— Todavia, a nossa missão não é ajudá-los. Digamos que a missão começa depois de amanhã. Verus? - Prosé passou a palavra para seu líder, esperando que o loiro levantasse antes que o lutador pudesse sentar. Verus colocou ambas mãos na cintura e disse, sucinto:

— Nós vamos aproveitar a distração dupla para pular num vão de elevador e acessar as plataformas abandonadas da via férrea. Peguem tudo que precisarem hoje, não voltaremos para a civilização tão cedo. - e sorriu.


Nisso, a gangue se separou. Hélio só tinha a roupa do corpo, o dinheiro da missão que completara dias antes e seus equipamentos, talvez fosse interessante comprar outros recursos antes do anoitecer.







4. Estação


    Como esperado, a equipe da estação fez o dia correr como se não estivessem prestes a sofrer um assalto. Na ausência de detalhes sobre como o assalto aconteceria, não havia ninguém vigiando os trilhos das garagens. 


Em menos de um minuto, Marthu e Prosé retiraram os pregos do trilho e numa martelada deslocaram a parte de ferro. Saíram dali tão rápido quanto chegaram, faltando ainda dez minutos para que o trem de fato chegasse.


Dois dias atrás, Marthu provocou um amassado na cabine de um dos elevadores. Para um bárbaro, até que ele foi sutil, visto que não provocou suspeitas. A cabine foi retirada para reparo e o vão do elevador ficou fechado durante esse período.


Oito minutos até o descarrilamento.


Verus não estava em lugar algum que pudesse ser visto, provavelmente estaria encontrando os assaltantes que os contrataram. Thon e Thanto estavam comprando algo numa barraca de comida ali perto, Prosé estava com uma mala, na entrada da estação. Marthu estava alguns lugares depois dele na fila, com as outras malas.


Hélio ficou de vigia na plataforma, observando. Como a viagem de trem era mais utilizada por quem faz viagem a longas distâncias, as malas acumuladas com Marthu não chamariam tanta atenção. Afinal, estamos falando de um bárbaro.


Três minutos para o descarrilamento.


O trem que vai descarrilar chega à estação, esvazia-se de passageiros. Verus aparece na plataforma do outro lado, sobe as escadas, atravessa a passarela. Não fazemos contato visual, seus passos não estão acelerados. Um grupo de indivíduos aparece uma plataforma mais distante, onde outro trem está estacionado e preparado para partir.

O trem que se acidentará parte.


Um minuto para o descarrilamento.


Já acelerado, o trem aproxima-se da garagem. Em dado momento, ouve-se o sistema de freio do trem gritando ao ser ativado emergencialmente. Apesar de ter tempo suficiente para desacelerar, o trem ainda sim descarrila e capota.

O estrondo é gigantesco, a locomotiva e dois dos vagões são projetados em direção ao trilho vizinho. Todos os passageiros na plataforma de onde ele partiu e nas outras começam a se aglomerar e olhar em direção ao acidente. Menos uma.


Na última plataforma, o grupo de indivíduos aproveita a distração para entrar no vagão mais distante, sendo repentinamente capturados pelos guardas à paisana. Não há tempo para acontecer um combate, pois são presos com manilhas que reagem ao uso de magia e vendados para que fiquem desorientados.


Prosé abre as portas do vão de elevador desocupado, Marthu pula junto com as malas. Verus agarra o braço de Hélio, Thon e Thanto pulam em seguida do bárbaro. Prosé pula depois, Verus também. Quando Hélio vai pular, uma voz conhecida o grita:


— Hélio? É você? - uma moça de cabelos longos de cor castanha acinzentada com mechas louro pérola olha para o mercenário, com expressão de surpresa e preocupação. O corpo de Hélio a reconhece, apesar de nunca tê-la visto com aquelas mechas ou roupas de aventureira. Ela tinha consigo uma mala, o que a impediu de correr atrás dele.


Ele hesita por um momento e, ainda de costas para o vão, salta, fechando as portas.


A queda é de três andares, sendo que o primeiro subsolo é uma sala para passageiros que aguardam trens que ainda demorarão a sair. Com a gangue reunida, Verus segura o mapa que estava com Prosé e, virando-se para o corredor abandonado, diz:


— Agora sim, vamos.




A equipe de segurança leva os assaltantes para uma sala isolada da estação. Eram cinco invasores para oito guardas. Todos os invasores com manilhas, vendados e sentados no chão, no centro da sala. O chefe dos guardas, que não estava à paisana, aproxima-se de um dos assaltantes e pergunta:


— Quem mandou vocês aqui? - com uma voz grave e imperativa. O assaltante pensa em não responder, talvez até em morder a própria língua para encerrar o interrogatório. Seu corpo tem outros planos.


— Nosso chefe é o irmão mais velho do governador, ele quer sabotar a reforma do prédio central e vender aquelas ferramentas pelo mercado negro. - os outros assaltantes começaram a se manifestar, na tentativa de calar o traidor. O próprio traidor não entendia o que estava acontecendo.


— Você tá maluco? Não sabe que o Eldero vai caçar as nossas famílias se não mantermos a boca calada? - surpreso com o que saiu da própria boca, o segundo assaltante também tentou se calar, mas a manilha mantinha suas mãos às costas. 


O amuleto que Verus havia dado para eles brilhava levemente, todavia, quando interrogados sobre a origem do amuleto, todos os assaltantes davam a mesma resposta:

— Eu não sei.






5. Partida


Quando Hélio aterrissou no andar subterrâneo, seu olhar estava vazio. Nem ele mesmo sabia ao certo que pensamentos se passavam por sua cabeça. Verus notou aquilo, mas em primeiro momento decidiu não perguntar. Precisavam ser rápidos.


Um ponto importante na proteção de locais públicos é que apesar de a Segunda Pele ser uma técnica de detecção por magia pouco comum, dada a quantidade de polimento necessária para se dominar e aperfeiçoar, alguns guardas são contratados justamente para manter essa técnica ativa e notar movimentações indevidas.


O sistema subterrâneo da estação, no caso, a região onde Verus e companhia estão, foi selada por questões de replanejamento. Nesse momento, ela abriga os trens antigos, movidos a combustíveis, e os carrinhos de manutenção. A entrada de qualquer pessoa fora dos horários regulares e momentos inesperados de manutenção é terminantemente proibida, pois através dos túneis é possível sair da cidade sem nenhuma fiscalização: que é o objetivo final da gangue de Verus.


— Por aqui, Hélio. - o loiro disse, despertando o mercenário de seu transe e estagnação. Seguiram por um corredor largo, apesar de cheio de poeira e teias pelos cantos, não era difícil imaginar quão movimentados aqueles corredores eram antes do selamento do setor. Hélio observava os quadros que ainda residiam nas paredes.


Diversos sofás nas salas de espera, cadeiras mais modestas nos corredores, o local onde provavelmente se tinha uma padaria. O local, agora, era inóspito. Em algum momento no passado, transbordava vida. Hélio sentiu um aperto no coração quando pensou isso.


Chegaram a um salão que estava bem melhor cuidado, com poeira, sim, mas sem sinal de teias ou acúmulos de insetos. No fundo do salão havia um portão de abertura vertical não muito grande, a partir dele se estendia um trilho até o meio.


— Na hora de decidir que acidente causar, pensamos no descarrilamento por um ponto crucial. - começou Prosé, do nada. - Se causássemos algum dano direto ao trem, seria muito difícil despistar os guardas; se causássemos algum estrago à estação, estaríamos fazendo um desfavor à vila e todos seus moradores. Interferir nos trilhos é o que daria menos trabalho de reparo…


— Considerando o trem capotado? - indagou Marthu, com tom de deboche. Deu uma risada.


— Por incrível que pareça, sim! O estrago que um descarrilamento naquela velocidade em terreno plano causou nem se compara aos danos estruturais dentro da estação ou se o trem tivesse tombado do lado de fora, atrapalhando a circulação das plataformas. - disse, claramente empolgado apesar das expressões faciais comedidas. - E outra, como eles têm tudo que precisam para manutenção lá em cima, não vão precisar vir aqui no armazém.


Terminando a frase, Prosé abriu uma das portas duplas de madeira que ficavam no lado oposto ao da entrada do salão, revelando uma pequena locomotiva:


— Um carrinho de reparo, é de reparo! - exclamou um dos irmãos mágicos. O mais agitado, Hélio ainda não sabia qual era qual.


Marthu, Prosé e Hélio pegaram o carrinho, que devia medir uns três metros de comprimento por dois de largura, pesando duas a três centenas de quilos, e carregaram até o trilho central. Verus assumiu a posição frontal do carrinho, Marthu jogou as malas para dentro e a gangue entrou. Hélio observava o carrinho com o olhar indo mais longe que ele. Verus deu dois tapas na lateral do carrinho, o barulho metálico trouxe o mercenário de volta à realidade.


— O trem das onze tá partindo! - disse, animado. O irmão mágico mais empolgado imitou uma locomotiva a vapor, relíquia para os tempos deles. Hélio entrou, o carrinho começou a se mexer. Prosé olhou para cima, como se visse algo.


— Chegaram perto, mas não perceberam a gente. - Marthu olhou de canto, daí entendeu o que seu companheiro estava fazendo. O lutador passara todo o caminho usando sua Segunda Pele para perceber se em algum momento teriam companhias inconvenientes.


Guiado pela magia de Verus, o carrinho acelerou trilho afora, passando por diversos túneis. Num corredor curvo, o líder chamou o novato da gangue para um ultimato:


— Hélio.


— Sim? - perguntou, o jovem estava para se perder num devaneio.


— Se você quiser voltar pra estação, é sua última chance.


Verus foi respondido com silêncio, a curva chegava ao fim.


— Não tem porque eu voltar. - Hélio respondeu.


A curva deu para um corredor reto, esse qual tinha a luz do sol ao seu final. Sairiam dos túneis e consequentemente da cidade. Verus suspirou, Prosé fechou os olhos para aproveitar o calor do sol quando batesse, Marthu procurava uma posição para dormir, Hélio cerrou o punho. Quando o carrinho saiu do túnel, certa leveza de espírito tomou os três veteranos. Hélio não entendeu porque percebera isso.


— Tá, agora que estamos aqui, o caminho é único. - começou Verus, virando-se para trás de forma a ver seus companheiros. - Hélio, vou te dizer por cima algumas coisas relevantes para daqui pra frente, tá?


Hélio concordou com a cabeça, curioso com o que viria. Prosé ainda aproveitava o sol. Os irmãos mágicos estavam recostados um no outro, observando a situação.


— Thon e Thanto não são membros da nossa equipe, originalmente éramos só Prosé e eu, Marthu se juntou a nós durante uma missão que a equipe dele, infelizmente, não sobreviveu. Os irmão estão nos acompanhando porque na verdade são nossos clientes. - as orelhas de Hélio pareciam uma ponte levadiça, reagindo a informação que recebera.


— Se eles quiserem compartilhar mais informações sobre eles, é com eles. O que podemos te dizer é que estamos indo até um suposto esconderijo, nossa missão é uma missão de extermínio. - disse Prosé, de olhos fechados. 


— E vamos exterminar monstros ou gente? - o mercenário perguntou, se preparando para ambas as respostas. Marthu riu como num pigarro.


— Essa é uma boa pergunta. É bem difícil de decidir o que são. 


Um silêncio sepulcral dominou a conversa, ouvia-se apenas o canto dos pássaros e o correr das rodas. Os irmãos mágicos emitiam uma energia assustadora. Hélio olhou, pensando que fosse o irmão mais sério que estaria mau humorado. Encontrou o irmão empolgado com sangue nos olhos, murmurando algo que não conseguia ouvir, mas supôs que fosse “extermínio de praga, extermínio de praga”.


Quando voltou a olhar para frente, seus olhos se encontraram com os de Verus. O loiro parecia aliviado, Hélio não sabia o que passava na mente dele. Se perguntasse, ele diria a verdade. Não perguntou, continuou a refletir sobre o que estava sentindo.


Afinal, o nome daquela mulher é Nissa.


Mas quem é ela? 




6. Nova Arma


Hélio acabou cochilando, não teve tempo de sonhar com nada específico. Acordou com a colisão entre seu corpo e uma das malas soltas pelo carrinho. O canto dos pássaros estava mais alto. Sentiu que era melhor acordar, mesmo.


— Afinal, o que levou um cachorro do mato que nem você pra cidade grande? - Marthu, agora acordado, perguntou. O bárbaro estava deitado bem folgado no carrinho. Competia espaço com Prosé, que se incomodava, mas não dava muita atenção para o próprio incômodo. Os irmãos riram com “cachorro do mato”.


— “Cachorro do mato” é a melhor forma de se referir a ele? - o lutador de cabelos preto azulados perguntou, incomodado com a falta de modos do bárbaro.


— Ora, que classe que você é, Hélio? - o ruivo perguntou, progredindo com a interação.


— Sou um patrulheiro.


— Tá aí, o que é um patrulheiro se não um cachorro do mato? - respondeu Marthu, olhando para Prosé de maneira jocosa. E ainda elaborou. - Caça no mato, vive escondido no mato, tem audição aguçada. Cachorro do mato.


Os irmãos continuaram rindo. Verus se absteve.


— Independente das semelhanças, que falta de decoro. - respondeu Prosé.


— Cachorro do mato não escala. - Hélio respondeu. - E eu não tenho nada contra coelhos.


Prosé claramente não entendeu a colocação sobre coelhos. Marthu fez um “óoh” com sobrancelhas arqueadas, Verus fez que achou justo, com a cabeça.


— Importante não ter nada contra coelhos. - disse o irmão mais sério.


— Sim, sim. Importante! Importante. - disse o irmão mais empolgado.


— Tá vendo, Prosé? Tem que ter argumentos mais fortes, que nem os do Hélio. - Marthu respondeu, ele falava sério.


— Eu mesmo não entendi, argumento forte só se for para um bárbaro. - Prosé olhava torto para o ruivo. As sobrancelhas do folgaram inclinaram-se.


— Ora, um coelho é o alvo favorito de um cão de caça! Pequenos do jeito ideal para se abocanhar, ágeis do jeito mais divertido de se caçar. - o bárbaro elaborou.


— Conhecemos um coelho que é um bárbaro. - disse o irmão mais sério.


— E um bárbaro que é um coelho! É, é sim. - disse o irmão mais empolgado.


— E são dois indivíduos diferentes.


— São! São.


Enquanto Prosé não deu muita atenção, Marthu e Hélio ficaram curiosos com a figura do bárbaro coelho. Verus olhava um mapa, analisando pontos de referência naturais. O canto dos pássaros ficava progressivamente mais alto.


Verus olhava o mapa e balançava a cabeça. Hélio observava, aguardando o que o loiro diria. Depois de refletir um pouco, Verus disse:

— É, estamos chegando ao fim da pista.


— Como assim “fim da pista”? - o mercenário sentia que ainda tinha muito da missão que ele ainda não sabia, descobrir aos pontos era uma montanha-russa de emoções.


— Esse caminho foi abandonado porque todo o trecho de ponte ali pra frente desabou além de reparo.


— E qual o plano pra parar o carrinho? - Hélio perguntou.


— Nós não tínhamos muitas informações sobre a região, então meio que teremos que improvisar pra descer. Mas parar ele não é uma opção! - o sorriso calmo de Verus não poderia ser mais contrastante com a situação.


— Eu vou jogar as malas pra fora e pular. - Marthu disse, já jogando a primeira mala.

Prosé começou a alongar os ombros. Verus ainda estava com uma mão no console do carrinho, diminuindo a velocidade dele como podia. O resto do trajeto era uma descida suave, mas ainda sim uma descida.


— Verus e eu sabemos magias que podem nos ajudar a amortecer nossa queda, como você vai fazer, Hélio? - Prosé perguntou, casualmente.


— Eu não tenho nenhuma magia. - Hélio respondeu. 


Prosé demonstrou certa preocupação em seu semblante, geralmente, pouco expressivo. Verus ficou ainda mais impressionado com o mercenário do que já estava antes. Marthu pulou, Thon e Thanto já haviam descido enquanto a conversa acontecia.


Conforme o carrinho se aproximou de uma curva, Prosé e Verus pularam e a curva ficou para trás. O mercenário viu o fim do trilho, junto com uma queda imprevisível.


— É, Nichole. Agora é contigo. - dizendo isso, desenrolou o chicote que carregava em seu ombro esquerdo. Observou as árvores mais próximas do trilho até que achou um tronco reclinado num ângulo promissor.

Sincronizou um giro de corpo com o momento em que o carrinho descarrilou para cair no rio, Nichole zuniu e estalou na madeira firme. Hélio deu a volta e pousou no chão a tempo de ver o carrinho mergulhar na água, algumas dezenas de metros abaixo.

A outra ponta da ponte estava em lugar nenhum a ser vista, mas parte de sua estrutura ainda era visível por cima da água. Hélio resolveu voltar acompanhando os trilhos.



— Hah, sobreviveu! - Marthu ficou visivelmente alegre ao ver Hélio voltando. O bárbaro já havia se reunido com os irmãos e com seus veteranos. O lutador e o ladino ficaram aliviados em ver o mercenário inteiro.

— Sobrevivi. Da próxima vez, me avisem com mais antecedência. Sim? - respondeu, com certo ar de brincadeira para disfarçar o estresse da situação.


Verus acenou com a cabeça, Prosé deu um sorriso de canto. Os irmãos pareciam agitados com algo. Hélio tinha uma suspeita, porque algo também o incomodava há algum tempo. Olhou em volta.


— O que foi? - Prosé perguntou.


— Você lembra que no caminho praticamente inteiro, desde que entramos na floresta, o canto dos pássaros estava tão alto que dava pra ouvir mesmo com as rodas do carrinho no trilho?


Verus e Prosé entenderam de primeira. Marthu não entendeu, daí prestou atenção em volta. Daí percebeu.


— Os pássaros ficaram em silêncio…?




7. Inimigo Fraco


    O silêncio dos pássaros permaneceu. A gangue, reunida, se entreolhava. Verus pediu, com um gesto de mão, que todos se aproximassem. Sussurrou para os outros:


— Precisamos encontrar a cachoeira que fica floresta à dentro, algum de vocês viu algo que servisse de ponto de referência?


Prosé, que havia descido junto com Verus, se absteve de responder. Marthu disse que não prestou atenção nisso. Os irmãos disseram que o fim do trilho era provavelmente o único ponto de referência confiável. Hélio pegou o mapa.

Correndo o dedo pela floresta no mapa, localizou a ponte que vira quebrada, caindo para o rio. Percebeu também que aquela região que haviam entrado fazia parte da Floresta dos Sibilos, de relance lembrara de algo que - os olhos azuis de Nissa tomaram sua mente por um momento. Lembrara de algo que Nissa havia lhe falado.


— Essa floresta tem algumas espécies específicas de aves, entre elas a abutre-víbora. É um pássaro sorrateiro que ataca os olhos das vítimas distraídas e espera que as vítimas enfraquecidas desmaiem ou morram pra se alimentar delas. Fiquem atentos.


Prosé concordou com a cabeça, olhou no mapa e reconheceu a curva onde ele e Verus haviam descido, partindo de onde Hélio apontara a ponte e considerando a distância que haviam percorrido. Olhou em volta, olhou o mapa.


— Nós temos que ir até essa cachoeira, certo? - o lutador apontou uma cachoeira no mapa que era indicada levemente a noroeste de onde ficava a curva. Olhou em volta de novo. Verus concordou com um simples grunhido. - Pelo que vi, temos que voltar mais um pouco pelo trilho, tem essa outra curva que serve de indicação para adentrarmos a floresta em direção oeste.


Todos concordaram. Prosé usara a Segunda Pele para perceber a movimentação de possíveis abutres-víbora à espreita. Não notara nenhuma, mas possível que a criatura fosse de difícil detecção.


Começaram a andar em silêncio: Verus guiava o grupo, Marthu o seguia com as malas, Prosé estava no meio, os irmãos e, por fim, Hélio. Seguiam rente aos trilhos, os pássaros voltaram a cantar. Encontraram a curva que procuravam e, assim que entraram de novo na floresta, o canto cessou.


— Com certeza são abutres-víbora. - disse o irmão mágico mais sério. - Vamos seguir, em frente. 


Caminharam por alguns minutos, até que um som agudo muito sutil começou a assoviar. Marthu não esperou antes de começar a correr com todo fôlego que tinha. Hélio não entendeu a decisão, mas encostou suas costas com as dos irmãos, para que cada um cobrisse a retaguarda do outro.


Num zunido repentino, um vulto disparou em direção a Prosé. O som de resposta foi como se o vulto tivesse batido de frente com uma parede de vidro grosso. 


— Veio primeiro até mim? - o lutador comentou. Hélio não conseguiu ver o que Prosé havia feito. Olhando com cautela, percebeu que vento se movia fortemente no tamanho de um prato em frente aos punhos do lutador.


Outros vultos voaram em direção dele, sendo recebidos com o mesmo som de parede de vidro. Hélio e Nichole interceptaram alguns dos vultos, Verus por outro lado analisava a situação durante o combate:


— Os olhos deles são assim mesmo? - perguntou Verus, curioso.

— Assim como? - Hélio tentou observar com mais cuidado a ave, de relance, avistou a silhueta de uma pessoa.






8. Encontro


    A silhueta tinha formas de difícil leitura, era uma pessoa, mas a roupa era larga. No instante seguinte, a pessoa sumiu. Os pássaros se movimentavam com ferocidade, Marthu não estava em lugar nenhum a ser visto e os irmãos mágicos também não.


— Eles estão de marcação comigo por conta da segunda pele, no momento em que eu desativá-la, eles vão atrás dos outros. - disse Prosé.


Hélio não pensou duas vezes, agarrou um dos pássaros através de Nichole e o arremessou contra o outro. Prosé finalizou os últimos dois com um soco de ventania perfeitamente sincronizado com o movimento de Hélio.


Verus juntou as mãos levemente na diagonal, palmas abertas, em atrito uma com a outra. Girou-as. Pequenos projéteis de terra saíram do chão e nocautearam os pássaros restantes. Hélio analisou os pássaros.


— Desacordados. Devem despertar em alguns minutos. Estão feridos mas devem conseguir voltar a voar. - determinou. Prosé alongava seu ombro, movendo o braço em círculos. Verus suspirou aliviado.


— Sabe pra onde eles foram? - o líder perguntou, o lutador respondeu apontando numa direção que estava marcada com os passos pesados de Marthu. Hélio olhou na direção onde vira o vulto da mulher, nem sinal dela. Olhando para os pássaros mais uma vez, percebera que seus olhos estavam diferentes de durante o combate.


— Estavam pretos, agora voltaram ao normal. - disse para si, Verus ouviu, não respondeu. Chamou o patrulheiro com um sinal de mão. Por onde andavam, Hélio ia escondendo os rastros.


Caminharam por dois minutos até que o patrulheiro precisou interromper o silêncio:


— Afinal, qual é a missão? Não sou muito chegado em surpresas, ainda mais aquelas que posso pagar com a vida.


Prosé olhou para Verus, que respondeu com um sinal de cabeça. O homem de cabelos preto azulados olhou para o céu de copa de árvores, que os cobria.


— Já ouviu falar nos Sinews? - perguntou.


Hélio parou de caminhar por um momento. Olhou para Prosé, que olhou de volta. O mercenário estava levemente consternado com o que viria em seguida.


— Nos últimos meses houve boatos de que eles estavam fundando bases em diversos lugares do país, agora que começaram uma caça aos Pavis. - disse, pesaroso. A caça praticamente esportiva dos elementais do fogo era de preocupação para toda a liga das Guildas.


— Rimou. “País” e “Pavis”. - disse Verus, ainda caminhando e olhando para o céu. - País dos Pavis é um nome legal. - concluiu. 


— Existe? - perguntou o mercenário.


— O quê? - disse o loiro, voltando o olhar para Hélio.


— Um país dos Pavis. Uma nação para elementais.


Verus sorriu, Prosé aguardava para voltar às explicações que foram pedidas.


— Não, não existe. Ainda. - Verus respondeu. - Mas é uma discussão que surgiu há algum tempo. Enfim, prossiga, Prosé.


— Thon e Thanto têm uma rixa com os Sinews, eles não nos contaram muito, mas ao que tudo indica entes queridos deles foram assassinados por eles. Desde quando isso aconteceu, os dois tão no lastro dos Sinews e aparentemente encontraram uma base que ainda tá em construção. - o lutador prosseguiu, sem pestanejar. Trocando olhares com Hélio, percebeu que o mercenário perguntaria algo.


— E a ideia é invadir e matar todos eles?


Verus riu, depois balançou a mão para que Prosé o ignorasse.


— Foi exatamente o que o Marthu perguntou, mas ele demonstrou estar empolgado com a ideia. - disse Prosé, antes de voltar ao que explicava. - Mas não, não vamos matá-los. Temos uma ideia do que fazer, mas a ideia é destruir a infraestrutura junto com os recursos que eles têm acumulados lá.


Hélio ficou aliviado, apesar de não saber porquê. Afinal, nunca tinha entrado em contato com os Sinews. Não que lembrasse. 


— Parece um plano muito melhor do que enfrentar eles na própria base.


— Definitivamente, enfrentá-los já seria difícil com vantagem de território. Mas é, vamos passar uns dias explorando a região para ver ser os mapas que temos batem com as informações reais, depois… - Prosé olhou novamente para o céu, dessa vez parou de andar. - …é uma boa missão para… encerrar.


— Encerrar? - o mercenário perguntou.


Verus tinha um semblante abatido, sendo a primeira vez que Hélio não o via animado em algum nível. Prosé quebrou o silêncio.


— É. Não quero te colocar preocupações desnecessárias, esquece isso por ora.


A palavra “preocupação” fez Hélio lembrar-se do vulto que viu durante o combate com os abutres-serpente, o que lhe causou uma vertigem repentina. O trio permaneceu em silêncio por mais alguns minutos, até encontrarem o outro trio, que os aguardava debaixo de uma árvore um bocado maior do que as outras. Ao longe, se ouvia barulho de água correr.


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