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OC Quest 2020 • O Sequestro das Tartarugas de Cristal

 OC Quest 2020


O Sequestro das Tartarugas de Cristal

por Gui Feliciano



1. Personagem

    Dina é uma aventureira da raça Pavio, uma raça de elementais do fogo. Muito misticismo circula essa raça, principalmente sobre sua origem.

    Por vezes Pavios afirmaram ter o que seriam “memórias de vidas passadas”, porém a realidade descrita era tão diferente da do mundo em que habitam que mais pareciam sonhos loucos. Ainda sim, entre um relato e outro, alguns detalhes eram similares.

    Os Pavios são peculiares. Proficientes em magias de fogo e incapazes doutros elementos, nascem com marcas escuras de chamas na região onde seria o coração de um humano que, conforme usam sua magia, vão se estendendo.

    Sua magia não se regenera, e as marcas não se contraem sozinhas. Uma vez que as marcas ocupam toda sua pele, eles esgotam seu reservatório e se tornam mortais.

    Todavia, existe uma forma de fazer as marcas voltarem. O “ritual da regeneração”, que cada tribo de Pavios executa periodicamente, é o momento em que os membros da tribo cujas marcas se espalharam desde o último ritual se juntam em torno de alguns animais caçados, ainda vivos, e usam de sua magia para queimá-los até a morte.

    A vida desses animais se torna em magia de fogo e é absorvida pelo dono das chamas que a consumiram. Quando criança, Dina teve um deja vu durante um desses rituais. Ela lembrou duma vida onde queria deixar de lado sua monótona
vida no escritório e tornar-se uma aventureira.

    Desde então, repudia o ritual da regeneração pois, ao seu ver, é algo cruel demais e poderia ser evitado. Dedicou sua vida a fortalecer seu corpo etéreo de forma a conseguir lutar com seus punhos ou armas brancas.

    Hoje é aventureira. E agora, lida com um arrependimento: num descuido, queimou seu companheiro de aventuras.



2. Companhia

    Aldino “Dino” Vanguardt é um paladino não-ortodoxo aventureiro. Cresceu numa seita onde adoravam Sinews, o deus da beleza e do vigor. Dentre os mandamentos dos paladinos havia um que ordenava: “Dos servos de Sinews, só deve provir aquilo que é belo”.

    Sua mãe foi executada publicamente por servir secretamente a Ankfl, o deus do entendimento e da gratidão. Por todo o tempo, foi humilhada. Tudo que ela clamava era que poupassem seu filho. Desde então, Dino tornou-se cético àquela sociedade em que vivia.

    Seu físico era esbelto, ainda que forte. Seu rosto trazia características que atraíam ambos homens e mulheres de sua vila. Dentre os maiorais da seita, havia a discussão se o garoto era um escolhido de Sinews ou uma desgraça, considerando de quem havia nascido.

    Durante os treinos, não havia quem lhe roubasse os holofotes. Quando perdia em força, compensava em agilidade. Quando em agilidade, inteligência. Sempre dava um jeito. Por fora, passou a ser apreciado por todos, mas em seu interior só existia a apatia.

    Um dia, um grupo de caçadores Pavios foi capturado por alguns dos membros da seita. Foram trazidos à mesma praça onde a mãe de Dino fora executada. Ali, fariam alguma festa com as “exóticas criaturas” antes de também executá-las. Dino sorriu para a oportunidade que surgiu.

    Com sua lábia e sorriso, os guardas lhe permitiram “ver de perto” as criaturas capturadas. Com sua fluência na língua comercial do país, fez um acordo com os presos. O momento da comemoração havia chegado, todos os membros da seita rodearam o palanque onde estavam as criaturas e os maiorais. Dino, como sempre fazia, se absteve. Ninguém estranhou.

    Até que, sem explicação, as criaturas soltaram suas correntes e queimaram cada um dos ali presentes como retaliação. Os que fugiram a princípio, se depararam com as saídas trancadas pelo outro lado.

    Foi assim que Dino conheceu Dina, e através dos nomes parecidos, sentiram que teriam muito ainda em comum.

    Esse flashback ocorreu em sonho para Dino, enquanto ele recuperava a consciência. Estava na enfermaria da guilda. Seu ombro ardia.



3. Tragédia

    As duas batidas com os nós dos dedos nas tábuas da mesa eram o indicador costumeiro de que Dino havia sentado e queria sua atenção. Toc toc. Dina costumava perder-se em seus pensamentos quando ficava sozinha, ainda mais enquanto esperava:

— Há quanto tempo está aí?

— Dois dias. Desde quando te trouxe.

    Dina virou-se para vê-lo. Ainda não havia vestido a armadura pesada, dava para ver a cicatriz que formou-se sobre todo seu ombro direito:

— Eu mataria por um rango, agora.

    Dina não soube o que responder. Mabel, a líder da Guilda, se aproximou dos dois:

— Eu tenho uma missão para vocês. Ela requer um aventureiro elemental e você é a única que conheço - disse enquanto virava o olhar para a flamejante;

— O que é? - Dina respondeu ao olhar mais do que à pergunta;

— Alguém roubou uma ninhada quase toda de tartarugas-de-cristal, nessa pasta tem as informações que precisam.

— Ah, essas são aquelas que só põem ovos a cada cinquenta anos, né?

— Essas mesmas, Dino. Quando estiverem prontos para partir, me avisem. O cliente encontrará vocês.

— Estamos prontos, só vou vestir minha armadura e já podemos encontrar com ele.

— Você está louco? - respondeu a líder. - Volte já para a sua cama, aposto que ainda nem consegue vestir uma armadura sem gritar;

— Ora, está duvidando da minha constituição?

— Nós paladi... Ai aiai ai - reagiu à mão suave de Nikolai, enfermeiro da Guilda, que pousou levemente sobre o ombro marcado;

— Ara ara, estou vendo a constituição - debochou, retirando sua mão. - Venha, vamos passar mais umas camadas de gel para queimaduras e você estará novinho em folha.

    Sua expressão denotava relutância, mas levantou-se para ir. Dina agarrou sua mão, de leve:

— Eu vou te visitar daqui a pouco. Quero conversar sobre algo que estava pensando.

    Dino ficou surpreso. Sorriu. Acenou. E foi.



4. Promessa


    Já estava aberta a porta da enfermaria. Nos horários mais movimentados da guilda, geralmente deixa-se fechada. Ainda assim, Dina bateu na porta. Dino já sabia que ela estava para entrar. Não devido aos passos dela no corredor, nem à energia mágica que ela emitia, mas devido ao cheiro inconfundível de seu prato favorito: carne de pato!

    Dina entregou o prato com dois sanduíches repletos de alface, tomate e cubos de carne. Ele devorou o primeiro no tempo em que ela arrastou um banco para perto da cama e sentou-se. No meio do segundo, Dino parou, frente ao silêncio da elemental:

— Você disse que tinha algo para conversar. Não precisa esperar eu terminar.

— Certo.

    O olhar de Dina repousava em suas mãos. As mesmas de onde haviam saído as chamas que causaram a queimadura nas costas e no ombro de Dino. Ela não parava de pensar nisso:

— Desculp...

— Desculpas aceitas.

    Silêncio. Dina não esperava essa resposta e sua culpa não diminuíra:

— É normal para um paladino se machucar na luta. Eu ter entrado na frente do seu ataque foi erro de julgamento meu, isso só mostra que eu ainda tenho muito o que aprender.

— Não, não é isso.

    Dino não esperava essa resposta e encarou-a, encaixando o último pedaço de sanduíche na boca:

— O erro de julgamento também foi meu. Quando caçava com meus irmãos, cada um era responsável por si. Nosso trabalho agora é em equipe. Eu quero arranjar uma forma de lutar sem correr tanto risco de te machucar.

— Você vai aprender como atacar, eu vou aprender como defender.

— ...Sim.

    Dino estendeu a mão, com apenas o dedo menor estendido:

— O que é isso?

— É uma promessa. - Dina imitou o gesto e selou o acordo.

— Me traz mais dois? Pode colocar na minha conta. - disse Dino, estendendo o prato com a outra mão.

— Trago sim. - começou a sair e virou-se para dizer ao chegar na porta:

— Os outros dois tão na sua conta, também.



5. Nova Arma


    Foram dois dias desde quando receberam a missão. Dino finalmente conseguia vestir sua armadura. Nikolai sugeriu pelo menos mais um dia de descanso, de preferência na enfermaria, e Dino agradeceu e desviou da sugestão. Foi até uma das sacadas da guilda, encarar o céu, sentir o ar fresco. Ouviu barulhos surdos vindo do pátio. Buscando a origem dos sons, avistou Dina socando repetidamente um dos bonecos de treino. Resolveu descer para conversar com ela:

— Então. Essa é a forma que encontrou pra lutar?

    Dina pausou sua repetição, ainda com os braços armados à frente do corpo. Deixou-os relaxar, aos lados do corpo. Em suas mãos, luvas marrons com armações metálicas e meias-esferas também metálicas nas bases dos dedos:

— Sim. Lutar com os punhos e pés é uma coisa que eu aprendi desde pequena. Contar com as nossas chamas pra tudo é perigoso... né? - disse, voltando os olhos para o local do ferimento.

— Ah... Certo, certo. Tá treinando há muito tempo?

— Hm, o sol tá quase a pino. Ele tinha acabado de nascer quando eu cheguei aqui.

— Ora, bom saber que está melhor, Dino. O cliente de vocês chegou.

— É? Você já tinha chamado ele?

— Sim, a Dina disse que podia chamar.

    Dino olhou para sua companheira:

— Enquanto você tava descansando, eu arranjei as coisas pra viagem. A gente parte hoje.

— Essas são as luvas mágicas que o ferreiro comentou? Que lindas! - disse Mabel.

— São sim. - respondeu Dina, ajeitando-as.



6. Caminho

    A reação de Dino foi indescritível ao descobrir que seu cliente era um furão. Foi uma mistura de surpresa com admiração, visto que a criatura, de menos de meio metro de altura, tinha cicatrizes no rosto e, de acordo com o próprio Dino - na memória de Dina - “cicatrizes são os maiores orgulhos de um guerreiro”. O furão subiu numa caixa, pigarreou e disse:

— Muito bem, vocês devem ser Dina e Dino. - Sua voz era muito grave; foi a vez de Dina surpreender-se. - Meu nome é Rut-fur. Sou o atual líder do clã das Doninhas-amazonas, responsável por proteger os ninhos das Tartarugas-de-cristal que desovam nas praias do Leste.

    Os aventureiros ficaram em silêncio por um momento após a apresentação dele. Apresentaram-se em seguida, como aventureira elemental e paladino. O mustelídeo continuou:

— Como já sabem, alguém sequestrou quase toda uma ninhada de tartaruguinhas. Elas haviam acabado de eclodir, sequer chegaram a conhecer o mar. - Abaixou a cabeça, num olhar lamentador, levantando-a com uma expressão obstinada. - Peço que resgatam-nas. Elas são de grande importância.

    Dina levantou a tartaruguinha de cristal, como se quisesse tapar a luz do sol, que agora já se encaminhava rumo ao horizonte. Na verdade, ela só estava observando os detalhes da criatura. Suas escamas eram translúcidas e refratavam a luz do sol como pequenos arco-íris internos:

— Ela vai começar a emitir alguma cor no momento em que nos aproximarmos das outras.

— Sim, sim. Mas ela é muito bonita.

    Seguiam a estrada rumo ao norte, onde as fuinhas especularam como sendo a rota de fuga do sequestrador. Um galope rápido e pesado aproximou-se de repente, investindo contra Dina e a tartaruguinha.


7. Inimigo Fraco

    Em resposta veloz, Dino alertou com um assovio e acertou a criatura com a lateral de seu martelo de guerra, atordoando-a. Dina recuou, apertando a tartaruga nos braços. Dino tirou a mochila, mas, antes que pudesse colocar seu capacete, Dina o chamou:

— Não, não. Deixa que eu cuido disso. Segura a tartaruga.

    Dino estranhou, visto que a pavio fez questão de carregar a tartaruga ao longo do caminho, mas lembrou que ela desejava ainda mais outra coisa:

— Tá na hora de estrear essas luvas.

    O rinoceronte cinza-azulado dava na altura dos cotovelos de Dina e tinha chifres tão translúcidos quanto as escamas das tartarugas. Após passar seu atordoamento, ele começou a correr em direção a Dino, sendo recebido com um soco direto de direita. Ele cambaleou para o lado, Dina assumiu uma postura de luta: punho esquerdo adiante, mostrando os nós dos dedos; punho direito mostrando a palma, à frente do queixo.

    Mais uma investida. Um soco leve, de esquerda, entre os olhos, desviando dos chifres. Em seguida, um gancho de direita. A cabeça do bicho inclinou, Dina encaixou mais dois leves de esquerda, finalmente derrubando o animal com um direto de direita.

  Assim que o bicho caiu, Dina ajoelhou-se para ver como ele estava. O rinoceronte ofegava, seus olhos estavam vazios, como se não visse o que estava em sua frente. Lentamente, sua consciência foi se recuperando:

— Ora, nunca vi derrubarem um chifre-límpido com os punhos!

    Dino e Dina assustaram-se com a voz desconhecida.



8. Especialista

    Mais alto que ambos aventureiros, com braços alongados e musculosos, um rapaz de cabelos cacheados e orelhas pontudinhas aproximou-se, com um sorriso no rosto:

— Estamos com problemas envolvendo chifres-límpidos nessa região. Eles raramente vêm para a região de floresta, mas têm sido bem frequentes nos últimos dias. Vocês são aventureiros?

    Disse, estendendo a mão para Dina, que ainda estava abaixada ao lado do animal:

— Sim, nós somos. Eu sou Dina, ele é Dino, meu companheiro. Qual seu nome?

— Ah, sim. Verdade. Eu sou Leucanthemum, mas pode me chamar de Leucan.

— V-Você é um filho da floresta?! — perguntou o paladino, surpreso.

— Sou, sim. Sou um mercador e druída.

    Dino empolgou-se:

— Nunca pensei que conheceria um pessoalmente!

— Ha ha ha, é a primeira vez que vejo alguém tão empolgado. Meu povo não costuma sair das florestas e mesmo assim raramente entra em contato com outros povos. Minha vila sai um pouco desse parâmetro, temos relações mais abertas com outras vilas dentro e fora da floresta.

    Leucan virou-se para o rinoceronte caído:

— Seus golpes foram bastante precisos. Você o deitou, mas aparentemente não causou ferimentos sérios.

— Era minha intenção, ele não parecia bem.

— Sim, sim. Eu aprecio seu cuidado.

    Leucan pareceu preocupado:

— Os outros espécimes que apareceram estavam da mesma forma. Peço perdão por não ter aparecido antes, estava tirando um cochilo pois viajei até pouco depois do meio-dia e costumo passar a noite acordado. De qualquer forma...

    Seu olhar se perdeu na criatura nos braços de Dino:

— Isso é uma tartaruga-de-cristal?

    Leucan empolgou-se. Os aventureiros explicaram a situação para o mercador, enquanto ele observava a criaturinha cristalina. Nisso, ele pareceu ter uma elucidação:

— Oh, talvez seja por isso que o chifre-límpido te atacou, Dina.

— Como assim?

— Já ouviu falar de criaturas pseudo-elementais?

— São criaturas compostas de matéria orgânica e de matéria mágica, ao mesmo tempo — respondeu Dino. — Certo?

— Exatamente. Existem proporções nisso. Hm, acho que...

    Leucan entregou a tartaruga para Dina e começou a entrar na carroça:

— ...tenho uma coisa pra você.


9. Novas Vestes


    Leucan saiu da carroça com um manto prateado nas mãos. Era médio, porém maior que um cachecol:

— Criaturas elementais reagem a criaturas elementais com neutralidade, mesmo se forem de elementos opostos. Todavia, criaturas pseudo-elementais têm a tendência a reagir a alguns tipos de magia de formas diferentes.

    Leucan estendeu ambas as mãos, entregando carinhosamente o tecido a Dina, que, por sua vez, passou a tartaruga para Dino, antes de pegar o manto. As fibras do pano eram costuradas formando escamas; apesar da aparente rigidez, o tecido era leve:

— Esse tecido é um isolante de presença elemental. Basicamente, se você cobrir sua cabeça com isso, vai ser mais difícil que outras criaturas pseudo-elementais, ou mesmo elementais, te percebam à distância.

— Ora, muito obrigado. Quanto fica? — disse a pavio, já tendo enrolado o tecido sobre os ombros e buscando sua bolsa de moedas.

— Não, não. Pode ficar pra você. Esse é um tecido que tenho há um bom tempo, não sei dizer se ele está em condições de ocultar sua presença, mas... pode ser útil para evitar pelo menos incitar os chifres-límpidos e—

    A tartaruga-cristal começou a brilhar levemente num tom de roxo. Dina lembrou-se do que Rut-fur havia avisado: “as tartarugas reagem à magia umas das outras.” Os aventureiros sorriram um para o outro; estavam indo na direção certa. Com a tartaruga em mãos, Dino começou:

— Leucan, para onde você tá indo agora?

— Eu estou indo para o norte, para lá tenho que buscar uns pagamentos das ervas medicinais que entreguei semana passada.

— Pode nos dar uma carona? — completou Dina.

    O sol começava a se pôr; Dino tirou parte da armadura e colocou junto das mochilas, na parte de trás da carroça. Dina segurava a tartaruga enquanto isso, observando seu brilho roxo, agora não mais tão brilhante, oscilando conforme a carroça virava as curvas da estrada. Dino pegou a tartaruga e disse que precisava se deitar. Leucan chamou Dina.



10. A Verdade


    No hipposcrofa, animal com características de hipopótamo e dentes de javali, puxava a carroça continuamente, sem demonstrar cansaço. Assim fazia também Leucan, que, apesar de não estar puxando a carroça, comandava o animal diligentemente.

    Dina sentou-se próxima a Leucan, mesmo que ainda dentro da parte interna da carroça. Ao lado dele, repousava uma esfera mágica, usada para comunicação à distância. Dina ouvira Leucan comunicar alguém sobre o chifre-límpido antes de ser chamada:

— Eu tinha um irmão menor, o nome dele era Themum. Chamávamos ele de Them. — começou Leucan. Dina atentou-se a ouvi-lo; sua voz estava menos animada do que antes de partirem. — Ele era um garoto muito animado para fazer as coisas, apesar de ser bastante inseguro. Queria se tornar um druída pesquisador; gostava de estudar plantas e tudo mais. Tinha bastante futuro.

    Leucan ficou em silêncio por um momento:

— Certo dia, ele contraiu uma doença. Nenhum médico da vila sabia lidar com ela.

    O hipposcrofa fez um barulho com a respiração. Dino respondeu inspirando alto, cochilando. O sol se pôs. Dina, que olhava para seu companheiro de aventuras, voltou os olhos para as costas de Leucan:

— Aí, uma feiticeira veio até nossa vila, mesmo que não a tivéssemos contatado. Não sei como ela nos encontrou. Ela disse que era capaz de curar ele, mas precisava levá-lo até sua casa.

    Outro silêncio perdurou. O céu estava escuro:

— Nunca mais tive sinal daquela feiticeira, nem do meu irmão. — Leucan olhou para Dina, com suas bochechas cobertas em lágrimas. — E os seus olhos me lembram os dela.


11. Sob as estrelas

    A carroça já havia percorrido alguns quilômetros, Dina permaneceu em silêncio desde o comentário de Leucan, assim como ele. Até que ele quebrou o silêncio:

— Eu não sei se quem sequestrou as tartarugas foi aquela feiticeira. Não sei também se ela é uma pavio ou sequer uma elemental... Nunca fui bom em perceber magia.

    
Dina levantou o olhar de volta para Leucan, vendo-o como uma penumbra para o céu estrelado. Ele continuou:

— Mas eu sei que desviando um pouco dessa estrada que estamos seguindo, tem ruínas numa clareira na floresta que é escondida por magia-da-floresta.

— Essa é... a magia do seu povo?

    Leucan já havia parado de chorar. Sua voz estava menos trêmula:

— É, sim. Um usuário de magia experiente deve ser capaz de localizar essas barreiras e atravessá-las por conta própria.

— Isso explicaria a feiticeira.

— Explicaria.

    O silêncio durou um prazo. Dina quebrou-o:


— Você sempre faz essas viagens sozinho?

— Sim.

— E não se sente sozinho?

    Leucan olhou para as estrelas. Dina conseguiu ver o sorriso curto de canto:


— Daqui, as estrelas parecem próximas umas das outras. Mas se com o brilho e calor do sol ele já está tão longe, quem dirá quão longe elas estão umas das outras?


    Ele deu uma pausa e continuou:


— Acho que a distância não importa quando se tem quem te faça companhia em algum lugar. Por isso mesmo que...

    O silêncio, dessa vez, não foi mais interrompido. As lágrimas de Leucan haviam retornado e Dina sentiu a necessidade de ir repousar. A noite seria longa para ambos, porém tranquila só para o druida mercador.


12. Pesadelo

    Em seu sono, Dina voltou a um momento de sua infância em que acompanhara os caçadores numa investida a uma vila problemática de pavios. Essa vila tinha conflitos internos e podia, potencialmente, afetar as vilas vizinhas. Sua vila era a mais próxima e, após uma reunião com as outras, foi decidido que deveriam invadir a vila para encerrar esse conflito. O cenário não foi o esperado.

    Eles chegaram na vila e não havia um pavio sequer nas proximidades, mas, bem no meio da vila, uma coluna de fogo havia sido levantada e, dentro dela, inúmeros corpos queimavam e urravam, tendo seus gritos consumidos pelas chamas que estalavam como uma casa incendiada ruindo. Os corpos eram irreconhecíveis. Seriam pavis? Outros animais?

    O responsável pela chama não estava onde pudesse ser achado. Os caçadores mais velhos ficaram em estado de choque e Dina não conseguia desviar os olhos daqueles corpos gritantes enquanto eram consumidos. Nisso, as sombras em combustão tomaram a forma de chifres-límpidos e uma dor lancinante tomou Dina. Seus gritos se aproximavam, assim como seus rostos, sua dor aumentava.

    A chama subiu aos céus e a coluna apagou, deixando pedaços carbonizados em meio à escuridão.

    A pavio acordou trêmula. Dino a abraçou, preocupado. Conforme a dor física que sentia foi se aliviando, ela se acalmou e Dino disse:

— Parece que chegamos no lugar certo, Dina. A tartaruga está brilhando forte.


13. Lugar Antigo

    De fato, a tartaruga emitia luz mais forte que antes. Saindo da traseira da carroça, viram uma construção em blocos de pedra e tábuas avermelhadas. Tinha duas entradas grandes como portões, sem portas, assim como algumas janelas nas partes que sustentavam a torre e na torre em si. O telhado era em degraus. Dina desceu após Dino, que já havia vestido seu protetor facial e escudo. Dina foi ter com Leucan:

— O que sabe dizer desse lugar?

— Ah, pela arquitetura aqui devia ser um armazém e torre de vigilância. Acho que o porão tem umas salas grandes que você precisa passar pra chegar nas escadas da torre.

— E por que pararam de usar aqui?

— Não sei ao certo, umas décadas atrás meu povo costumava fazer mais comércio com as cidades grandes. Até então acho que precisavam de mais lugares pra organizar as mercadorias, né.

— É, é. Faz sentido – interviu Dino. – Deve ter sido depois que os cristais de cura e energização recarregáveis começaram a se popularizar, deve ter diminuído a demanda de produtos naturais.

— De fato, faz sentido.

    Entrando por uma das grandes passagens, depararam-se diretamente com escadas que levavam a, como Leucan havia chutado, um saguão com salas grandes. No caminho, encontraram tochas de fogo mágico – "não apagam a menos que seja vontade de quem acendeu", pontuou Dina. E apesar das tochas, o local era mal iluminado.

    Havia também um portão de energia fechando uma das salas, não dava para ver através dele. Por outro lado, Dino reparou num monte de caixas, foi vasculhá-las e:

— Dina, vem ver isso aqui.


14. Segredo

    A primeira das caixas era do tamanho de um caixote de pão e estava repleta de livros. Todos em bom estado, - pareciam escritos há pouco tempo, apesar das capas aparentarem ter mais tempo:

— São diários? – perguntou Dina, ao folhear um deles e perceber o padrão dividido em datas, vazio em mais da metade – esse parece o mais recente. Então o mais antigo deve estar embaixo dos outros – concluiu Dino, vasculhando para pegar o primeiro.

    Junto das anotações haviam rabiscos até que bastante meticulosos, Dina em especial ficou surpresa, pois gosta de gravuras. Parou de folhear quando viu uma cena familiar. Uma torre de corpos em chamas:

— Dino. – começou.

— O quê? – o paladino aproximou-se, ainda com outro diário em mãos.

— Isso aqui é... Não pode ser... — Dina começou a ler em voz alta – “...descobrimos que os chifres-límpidos, devido à proporção orgânica-elemental e baixa inteligência, eram ótimos multiplicadores de magia. Bastava injetá-los com magia até que sua parte orgânica começasse a fraquejar, então, aprisionava-os no porão até que ambas as partes entrassem em sintonia de novo, depois quando ocorresse o tal ritual de regeneração...” É o ritual do meu povo! – exclamou, indignada – “...e a magia que retorna é exponencial.”

    Dina levantou o queixo, como se as informações tivessem se conectado de uma vez:

— Então eles conseguiram um jeito de multiplicar de magia? - perguntou Dino.

— Pior que isso. – a voz da pavio parecia rouca.

— Então o quê?

— Eles conseguiram magia infinita. – concluiu.


15. Relíquia

    O paladino havia estudado e devorado livros praticamente toda sua vida: enciclopédias, teorias, épicos e até romances. Tudo. E mesmo assim, nada pareceu tão incompreensível quanto as palavras que saíram da boca de sua companheira de aventuras:

– Magia infinita? Como alguém administra isso? – ele estava estupefato.

– Não quero dizer que ela de fato tenha alcançado isso, como uma pedra filosofal ou algo do tipo. – Dina percebeu o espanto de seu companheiro e apressou-se em acalmá-lo – Quero dizer, a fórmula para magia infinita. Independente de quanta magia ela precisar usar, o retorno é sempre maior. Ela literalmente pode usar quanta magia quiser.

    Foi então que a dupla percebeu a situação que eles se encontravam: algum feiticeiro com magia incalculável à disposição? Eles se encararam, nada disseram, mas o mesmo pensamento passou por suas mentes: fugir não era uma opção. E tinham um ao outro.

    Dino voltou a procurar informações relevantes nos diários, Dina voltou ao portão mágico e percebeu que, assim como as tochas mágicas, a barreira era de magia de fogo. Estendeu suas mãos e tocou, com as pontas dos dedos nus, a fina parede mágica, que se abriu como uma janela entre suas mãos.

    Dentro da sala, havia vários chifres-límpidos debilitados, seja deitados ou movimentando-se vagarosamente. No fundo, havia um chifre-límpido gigante. Do tamanho da carroça de Leucan, senão maior, e sua pele era rústica e o chifre do comprimento de um dos espécimes menores.

    Dina entristeceu-se. Até que Dino, mais uma vez, a chamou.


16. Nova Arma

– O que descobriu? – perguntou Dina, com o olhar abatido do que tinha visto através do portão. Dino, por outro lado, parecia deveras entretido pelos diários.

– “Em dado momento, a mestra usou de uma adaga rosada para perfurar a rígida pele dos animais, debaixo das sobras de pele. Isso permitia que a magia vazasse um pouco, enquanto a pele se regenerasse, o que, por alguma razão, acelerava o processo de sintonização entre ambas partes dos animais...”

– Isso parece mais um relatório do que um diário – comentou a pavio.

– De fato, parece. Pelo que vi, alguns livros são pessoais, falam de seja lá quem escreveu isso ter sido trazido aqui e tal, mas eu foquei em fazer leitura dinâmica dos relatórios, porque tem coisas mais relevantes.

– Além de sabermos da fonte de magia e que a responsável é uma maga, o que mais descobrimos, então?

– Duas coisas importantes! Primeira: num dos livros, o escritor relata que os servos dessa maga, assim como ele, passaram por um processo de transformação para servir às causas dela, mas só ele sobreviveu. Ou seja, aparentemente só temos dois inimigos para tratar. Por essa escrita detalhada, o escritor deve ser um cientista experiente, provavelmente um feiticeiro também, a essa altura. Segunda coisa: em algum lugar aqui deve ter uma adaga capaz de ferir fatalmente criaturas mágicas. – dito isso, Dino colocou o livro de lado e começou a procurar, junto à Dina.

    Em dado momento, a pavio avistou um pano parecido com o que Leucan havia lhe entregado para esconder sua presença mágica. Embaixo dele havia outro tecido, macio, embrulhando uma adaga de lâmina, assim como descrita no diário, rosada. O pesadelo que Dina havia tido na noite anterior veio à tona.

    Nenhum corpo havia sido encontrado na vila que ela e os caçadores pavio tinham ido investigar. Nenhum corpo além daqueles dentro da torre de chamas. Em compensação, alguns cabos idênticos ao da adaga estavam abandonados em volta da fogueira. Só a parte que continha do guarda-mão até o pomo. E cacos de cristal vermelhos como sangue humano.

    Um dos caçadores a instruiu que não pisasse naqueles cacos, pois em elementais eles causavam machucados quase impossíveis de se cicatrizar.

    Então a suspeita de Dina comprovou-se. Não havia outra explicação. A maga era uma pavio.


17. Inimigo Humano

    Ao subirem as escadas no fim do saguão, os aventureiros se depararam com três entradas com portas fechadas e uma única aberta. Dela, saía resquícios da luz do sol que iluminava a sala. Aproximaram-se silenciosamente. Da sala vinha um cantarolar resmungado, uma música animada em uma voz penetrante. Dino, que estava à frente, olhou de canto para dentro da sala, encontrando uma mulher alta, trajando vestes longas, num movimento circular, como se bailasse com a pequena tartaruga que segurava. O cabelo flamejante e lábio superior marcado comprovaram o que Dina havia lhe dito no andar inferior.

– É, ela é uma pavio. – sussurou.

– Ela tem os brincos?

    Dino voltou a olhar.

– Três de um lado, um do outro – respondeu.

    Dina não lembrava com clareza, mas muito provavelmente esse era o padrão utilizado naquela vila de seu pesadelo.

– Eu vou falar com ela – decidiu.

– Falar? Como assim falar? – o paladino se virou, confuso.

    Sem dar uma resposta, Dina cobriu seu rosto com parte do pano que Leucan havia lhe dado. Naquela hora, ela sentiu o quão frágil era aquele tecido e torceu para que a magia na sala interferisse o suficiente na percepção da maga a ponto de não conseguir identificar a aventureira. Ela se agachou, foi devagarinho até a frente de Dino e, quando a maga se virou, escondeu-se atrás de uma estrutura grande que ocupava mais de metade da sala.

    A maga continuou a cantarolar. Dina observou que a estrutura era como uma grande ampulheta que, ao invés de ter um formato aviolado, tinha uma esfera de cristal com abertura em forma de cúpula. Dentro da esfera, estavam quase todas as tartarugas-de-cristal que haviam sido sequestradas. Elas brilhavam em diferentes cores do arco-íris, com exceção do roxo (ou violeta).

– Ora, ora. Seu brilho não mudou ainda... – a mesma voz perfurante que cantarolava, começou a falar. – Seja lá quem esteja trazendo sua irmãzinha, está demorando a sair do lugar, hein?

    Mesmo separados, Dino e Dina ficaram atentos. A maga sabia que eles estavam ali? A tartaruga-de-cristal que estava nas mãos dela brilhou no mesmo roxo que a tartaruga que usaram como referencial. Em resposta, as tartarugas na esfera brilharam de volta.

– Enfim, enfim! Quando eles chegarem, finalmente poderei colocar vocês no lugar daqueles cavalos imundos. – O desgosto na entonação de sua voz confundiu Dina, mas logo ela associou. A maga falava sobre os chifres-límpidos.

    “Mas cavalos?”, pensou.

– Não aguentava mais sujar minhas mãos com aquelas criaturas. Eles podiam ser bonitinhas que nem vocês, né? Gracinha. – Dizia ela, enquanto erguia a tartaruga no ar, em sua frente. – É uma pena que mesmo tão adoráveis, ainda sejam criaturas orgânicas.

    A maga colocou a tartaruga de brilho roxo junto das outras, fechando a cúpula. Nesse momento, Dina levantou-se e, virando para ela, disse:

– Qual o seu problema com criaturas orgânicas?



18. Recompensa


– Elas são tão irrelevantes como são efêmeras. – disparou a maga. – Pela tua roupa, você me parece uma aventureira. É você que está com a última tartaruga?

– Irrelevantes? Isso é razão para desprezá-las? – Dina confrontou, ignorando a última pergunta.

    A maga apertou os olhos como quem franze as sobrancelhas, as quais ela não tinha. Ainda com o rosto escondido, Dina teve a mesma expressão em seu rosto.

– Me entrega a tartaruga, aí eu desculpo você invadir minhas acomodações.

– Suas? – o olhar da maga se apertou ainda mais. – Não vejo muito mérito em se apossar de coisas feitas pelos outros, já que com tanta magia assim você poderia fazer a sua pró–

    Uma onda de calor alcançou Dino no corredor, ao mesmo tempo que uma nuvem de chamas consumiu Dina da cintura para cima.

– Não te ensinaram a não mexer com fogo, não? – a maga disse, até que as chamas se dissiparam.

    Dina estava intacta, visto que pavios, como seres elementais de fogo, são imunes às magias do próprio elemento. Por outro lado, suas vestes do corpo superior haviam sido consumidas, incluindo o tecido que Leucan havia lhe entregado, e suas marcas pretas de chamas, características dos pavios usuários de magia, ficaram completamente à mostra. Suas ombreiras, por outro lado, ficaram chamuscadas, e suas luvas, próprias para a elemental de fogo, estavam tão intactas quanto a dona.

    Num movimento rápido, Dina se aproximou da maga.

– Você também é uma– – começou e, antes de terminar, Dina fincou a adaga em seu torso. – ...pavio.

    Ao invés do comum barulho de carne sendo rasgada, o que se ouviu foi um som característico de vidro trincando. O olhar de ódio da maga se esvaiu, sendo tomado gradualmente pelo desespero de tomar consciência do que estava acontecendo. Em compensação, o olhar de Dina sequer tremeu.

– Eu sou Dina, pavio da vila Secunduo. Qual é o seu nome? – disse com uma entonação áspera e objetiva.

    A maga tentou alcançar os pulsos de Dina que, em resposta, pressionou a adaga ainda mais fundo. Ela tentou ao menos segurar os braços dela, mas a força física da aventureira era superior. A maga não respondeu. Franziu os olhos com repúdio pela sua algoz.

– Eu só quero… – Dina atentou-se à voz falhante da maga. – ...um mundo só para nós.

    Dina não compreendeu, mas, antes que pudesse questioná-la, a rachadura se expandiu e a estabilidade da maga se desfez. Ela entrou em processo de fissão mágica. Suas chamas vazaram por todo seu corpo, Dina largou a adaga e protegeu-se da forte luz que o corpo, explodindo, emitiu.

    As chamas, então, sumiram. Assim como as marcas pretas no corpo de Dina começaram a desaparecer.



19. Aviso


    Na carroça, Leucan conversava com sua esposa através da orbe mágica que repousava ao seu lado. Em suas mãos, a tartaruga-de-cristal ainda brilhava em roxo.

– Eu te juro, meu amor. Essa tartaruga tem, de longe, o cristal mais límpido que eu já vi! – disse ele, empolgadíssimo.

    Nisso, uma luz ridiculamente forte escapou pelas janelas mais altas da construção.

– O que está acontecendo aí? – disse a voz melodiosa que saía da orbe translúcida.

– Parece que eles encontraram o feiticeiro. Espero que eles voltem bem… – respondeu Leucan, preocupado.

    Segundos depois, uma nuvem avermelhada se moveu por entre as tábuas da torre. Devido à luz forte, Leucan não conseguiu identificar o formato dela e até considerou que fosse impressão sua. E então, após um longo minuto de silêncio observando a construção, o chão começou a tremer.

    Primeiro saiu um, depois mais três, e então algumas dezenas de chifres-límpidos começaram a sair de dentro da construção, descontrolados. Leucan observou que eles corriam na mesma direção de onde ele e os aventureiros tinham vindo, então disse à sua esposa:

– Chame reforços, temos mais de trinta chifres-límpidos indo em direção à nossa vila. Vamos precisar de um ritual.

– Você consegue chegar antes deles? – perguntou, não só preocupada com ele, mas mentalmente considerando a pior resposta.

– Vou tentar.


20. Ambulante

    O paladino adentrou a sala assim que as chamas começaram a se esvair. Ele correu até sua companheira:

– Você tá bem? O que houve? – para alguém tão costumeiramente confiante em seu conhecimento, Dino parecia uma criança desnorteada.

– Ela... se desfez? – a ficha de Dina ainda não tinha caído. Sua mente ainda processava o que ela havia acabado de fazer.

– Suas manchas! Elas sumiram! E seu cabelo tá gigante – o paladino levantou a voz em surpresa.

    Dina olhou para seu torso nu e percebeu que todas as marcas pretas que se estendiam desde seu seio esquerdo haviam se recolhido. Então, sua mente clareou, seus ombros se sentiram leves.

– Eu absorvi parte da magia dela, enquanto ela entrava em fissão. Eu nem sabia que isso era possível – então veio uma sombra em sua visão, como se sua mente apagasse. Dino apoiou-a quando ela quase caiu para a frente.

– Você tá bem?

– Eu acho que tô. Nunca tive tanta magia.

    Então, uma figura apareceu na porta. Era esbelto, de membros alongados, porém baixo. Vestia uma capa que cobria quase todo seu corpo, com exceção da região entre a barriga e a frente das pernas. Seu cabelo era bastante encaracolado, sua pele avermelhada remetia à de Dina e da maga, porém menos saturada. Suas orelhas pontudinhas eram mais curtas que as delas, todavia.

– Mestra Rina... O quê? Quem são vocês? – perguntou, afobado. Havia subido as escadas correndo, mas não ofegava.

    Dino e Dina se entreolharam, sem saber exatamente o que responder. Seria esse o companheiro da maga que ainda precisavam enfrentar?

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